quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Gal Costa - A musa de qualquer estação


O mais bem sucedido disco comercial da carreira de Gal Costa, com vendas que assolaram não só o mercado brasileiro, mas também o internacional, trazia um sofisticado repertório que se viu eclipsado e vincado pela mítica “Um Dia de Domingo”, dueto antológico da cantora com Tim Maia, considerada pelos críticos mais austeros a grande mácula brega no repertório galcostiano, sem justiçar a bela arquitetura sonora de um álbum eclético.
Lançado em plena virada que mudaria a face da MPB ante ao grande público, em 1985, Bem-Bom é a síntese dessa mudança, onde o tradicional toque bossanovista dava passagem para o popularesco, que por sua vez, fecharia a década de oitenta de portas abertas para os movimentos do axé e do pseudo- sertanejo. Bem-Bom, cumpre esta função ao diluir nas suas faixas o novo rock que se desenhava, trazendo autores então incipientes como Cazuza, consolidando a Bossa Nova que se estreitava naquela década, o velho rock psicodélico pós Tropicália de Waly Salomão e, principalmente, o romantismo exacerbado que abriria passagem para as bem sucedidas duplas sertanejas vindouras, através da coragem de gravar Michael Sullivan e Paulo Massadas, a dupla mais registrada por grandes intérpretes da MPB naquela década, hoje marginalizada e datada pela crítica e pelo público.
Bem-Bom demarcava os quarenta anos de Gal Costa, na época estrela absoluta da MPB, trazendo um vigor estonteante, uma extensão vocal que beirava o viés da perfeição. Idealizado pela cantora e pelo genial Waly Salomão, mostra-se eclético, moderno e tradutor da essência de uma década, muitas vezes injustiçada pelas novas gerações, que da época só viram o exagero das cores new wave. Erroneamente identificado como o disco de “Um Dia de Domingo”, é um dos registros mais ousados da cantora, que passa por Chico Buarque, Roberto e Erasmo Carlos, Milton Nascimento, Djavan, Gonzaguinha e Marina Lima, trazendo uma sensível beleza técnica de uma das maiores vozes do mundo. Bem-Bom, quem comprou o álbum na ânsia de um apelo popular, deparou-se com um sofisticado repertório, longe de ser alcançado pelos milhões de ouvintes que o levou para casa. O disco é a sutil tradução de uma década, sem jamais ficar preso a ela.

Um comentário:

  1. Oi Ana!
    Ótimo post...

    Apesar de ter sangue mais heavy metal que mpb, eu tenho esse VINIL...rsrs.. pois é... com o encarte gigante e uma foto de Gal Costa em duas páginas... muito bom... foi um dos bons disco que conheci na época.

    Não conheço muito sobre a cantora, mas curto muito algumas musicas desse disco como "o último blues (Chico Buarque)" e "todo o amor que houver nessa vida (Frejat
    e Cazuza)"...

    Alias, acabei de baixar o disco pra voltar a ouvir...

    Obrigado por me enviar 20 anos no passado!... ;)

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