quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Clube da Esquina

Quando perguntados sobre o surgimento do Clube da esquina, seus integrantes não hesitam ou divergem em suas declarações: a amizade estaria tanto na origem, como seria também a mola propulsora da obra conjunta realizada por esses compositores. A amizade nasceu, portanto, antes de qualquer canção. Segundo eles, as esquinas de Belo Horizonte proporcionavam os mais diversos tipos de encontros. Em uma delas, se deu o encontro entre a amizade, os sonhos de liberdade e as canções. Nova maneira de viver e experimentar a canção brasileira, o Clube da esquina surpreendeu o país ao combinar, de maneira inovadora, o que havia de mais atual e surpreendente em circulação pelas capitais do mundo, com as particularidades da base cultural mineira.

A capital mineira, durante as décadas de 1960 e 1970, foi o cenário ideal para o encontro entre os personagens que viriam a fazer parte do Clube da esquina, e o palco perfeito para o nascimento da obra produzida por eles. Belo Horizonte foi o ponto de partida para a criação de uma nova musicalidade que carrega a densidade barroca dos cantos das festividades religiosas; que paquera a melodia chorosa das noites de serestas; que flerta com a imprudência acrobata do Jazz; que namora a batida harmoniosa do violão bossa-novista; que acompanha o batuque ritmado do congado e se deixa levar pelo delírio, eletrizado pelas guitarras do Rock.

O Clube da esquina, liderado pela voz de Milton Nascimento, transformou Belo Horizonte em uma “esquina sonora”, que se configura como um espaço do diálogo, da descoberta de novas referências, influências e amizades. Esquina como a do cruzamento entre as ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Santa Tereza. Este bairro onde a família Borges morava, abrigou grande parte das reuniões entre os membros e demais convidados do Clube da esquina. O marco inicial dessa trajetória nos leva a 1967, ano de lançamento do disco de estréia de Milton Nascimento. Na gravação desse disco, impulsionada pela repercussão de “Travessia”, classificada em segundo lugar no II Festival Internacional da Canção daquele ano, estão reunidas as primeiras composições do grupo, que tinha Milton Nascimento, Wagner Tiso, Márcio Borges, Fernando Brant e Ronaldo Bastos entre seus integrantes iniciais. Algumas dessas canções foram compostas entre os anos de 1963 e 1964, momento em que, se prenunciavam as transformações que alteraram os rumos políticos do país, bem como o cotidiano vivido por esses jovens compositores.

Em 1964, o regime militar passou a impedir o ativismo político e cultural, interferindo no cotidiano da cidade e do país através da censura e da perseguição aos opositores do governo. Para o escritor Afonso Romano de Sant’Anna, em Belo Horizonte, “a revolução se socializava nos bares”. Em especial, nos bares da galeria do Edifício Malleta, uma espécie de “espaço síntese dos anos 1960”. Em seus discos seguintes, já com certo respeito alcançado no cenário artístico brasileiro, Milton Nascimento agrupou, em torno de sua figura, outros compositores e instrumentistas, como Toninho Horta, Nelson Ângelo, Lô Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini, Tavinho Moura, Murilo Antunes entre outros, os quais, aos poucos, passaram a oferecer sua marca pessoal ao trabalho que vinha sendo realizado. Ao longo da década de 1970, o Clube da esquina se firmou na cena sonora do país, criando uma linguagem própria, com alto grau de elaboração e originalidade.A partir do disco Milton, de 1970, o intérprete mineiro comportado que vestiu terno preto para subir ao palco do II Festival Internacional da Canção e defender a canção “Travessia”, em 1967, adotava um novo visual, composto por elementos que reafirmavam a importância da cultura negra em sua carreira. O novo figurino utilizado em seus shows incluía: pés descalços, cabelos eriçados, calças amarelas justas, colares de contas, jaqueta de couro com colagens de estrelas prateadas. Além disso, a capa do disco, criada por Kélio Rodrigues, trazia o cantor em um desenho de contornos bem definidos e cores fortes, que traduzia a nova guinada na trajetória do artista. Para acompanhá-lo em seus shows, Milton Nascimento convidou o Som Imaginário (Wagner Tiso, Luís Alves, Robertinho Silva, Laudir de Oliveira, Tavito, Fredera e Zé Rodrix), banda de rock progressivo que, pelos casacos psicodélicos, cabelos e barbas longas, lembrava muito a capa do disco Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Esse grupo formou a base musical na produção do disco que fundia as guitarras distorcidas de Lô Borges com o uso determinante da percussão de Naná Vasconcelos.

Lançado em 1972, o álbum Clube da esquina, devido a sua ousadia musical, variedade rítmica e experimentação incomum na canção popular realizada até o período, foi reconhecido pela crítica especializada como um marco divisor na produção fonográfica brasileira do século XX. O LP contou com a participação maciça de todos os músicos reunidos por Milton Nascimento até então e é considerado como a consolidação das inovações musicais criadas pelo grupo. Durante as gravações, os músicos se revezavam em vários instrumentos nas diferentes faixas do disco. Não existe um instrumento especifico para cada músico. A musicalidade resultante dessa combinação seria a característica que marca o trabalho coletivo realizado pelo Clube da esquina. Em 1978, o grupo celebra novamente a amizade com um novo encontro musical: o disco duplo Clube da Esquina 2. Esses dois LPs formam o “cartão de visita” do grupo.

Em seu percurso, o grupo de amigos criou uma obra coletiva repleta de originalidade e imaginação. Em sua travessia, o Clube da esquina contou com a criatividade musical de compositores que souberam dar vida à composição de canções de rara profundidade e de faces múltiplas. Durante os anos 1970, eles construíram uma trajetória repleta de novos sonhos que ultrapassavam os limites da realidade vivida à época. Canções que nem mesmo o tempo foi capaz de apagar.

A música do mundo, o cheiro da grama, as estrelas no céu e o coração satisfeito trouxeram a inspiração deste post.

Salve o Clube da esquina!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O samba de Teresa Cristina


Carreiras tem caminhado em marcha lenta, quando não ficam estagnadas, por conta da sede da indústria fonográfica por projetos ao vivo. O de Teresa Cristina, O Mundo é meu Lugar, foi lançado nos formatos de DVD (foto) e CD ao vivo. Fiquei imensamente lisonjeada com o presente recebido de meu querido amigo Rafael, enviado diretamente do Rio de Janeiro, o melhor lugar para se ouvir samba nesse país, lugar esse onde tive o prazer de conhecer o samba de Teresa. Mesmo apreciando seu trabalho, devo dizer que a cantora e compositora soa inevitavelmente redundante neste seu terceiro trabalho - simplesmente porque ainda era cedo para lançar um registro de show. Teresa tem apenas dois discos - o tributo duplo A Música de Paulinho da Viola e o autoral A Vida me Fez Assim - e se viu obrigada a rebobinar o repertório destes trabalhos, com algumas poucas novidades. Uma delas é a inédita Pra Cobrir a Solidão, parceria da compositora com Zé Renato. Trata-se de um tipo de samba mais interiorizado que evoca (de longe) a densidade da produção de Paulinho da Viola.

No mais, há sambas inéditos na voz da cantora - casos de Com a Perna no Mundo (do Gonzaguinha politizado dos anos 70) e de O Meu Guri, o pungente retrato da infância abandonada esculpido por Chico Buarque em 1978. Mas nem tudo seduz. Ainda tímida no palco, Teresa Cristina não é a intérprete mais talhada para apresentar os dramas buarquianos. Falta no seu registro de O Meu Guri a força e a emoção contidas nas gravações de Beth Carvalho e Elza Soares. Por isso mesmo, soa assustadora a notícia de que o próximo disco de Teresa poderá ser dedicado à obra de Chico, já tão vasculhada por cantoras mais intensas.

Apesar do caráter precoce deste projeto ao vivo, o saldo é positivo. O Grupo Semente é luxo só, o bom gosto do repertório é indiscutível e o DVD ainda traz, de quebra, o ótimo documentário Dona de Casa me Dá Licença, em que a cantora refaz sua trajetória artística.