sábado, 26 de março de 2011

Se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais.,..


Coisa esquisita, esse Devendra Banhart. Tive a grata surpresa de descobrí-lo quando buscava o Rodrigo Amarante no google. Ele canta uma música no disco do Devendra. Na busca, dei de cara com esta foto. Achei que o figurino fosse de odalisca. Mas é de Carmem Miranda.

O Devendra é texano, é filho de indianos, foi criado na Venezuela e hoje mora em San Francisco. Canta em inglês, espanhol e em português também. Entre seus ídolos estão Bob Dylan, Caetano Veloso, Mutantes e Secos e Molhados. Nas suas músicas, a gente percebe essas e outras influências. Ele mesmo fala de todas. Ele é debochado. Disse que queria gravar um disco em brasileiro, não em português. Cada música é muito diferente da outra. No CD que baixei, Smokey Rolls Down Thunder Canyon, tem rock, samba (tem que avisar que é samba), tem um coro gospel e traços da música oriental em vários momentos. Tem uma que é puro Stan Getz, outra lembra Led Zeppelin. Em outra, ele canta o “din gon din gon gon din din” de “Acabou Chorare”. Tem também um rockezinho romântico anos 60.

O som não tem nada de novo e é muito bom. A gente percebe que o cara canta e compõe o que gosta e pronto. Enquanto procurava saber mais sobre ele, encontrei várias definições: roqueiro, roqueiro-folk, tosco, psicodélico, hippie, étnico, zen e mendigo são só algumas. É impressionante a mania que as pessoas têm de rotular quem não quer rótulo. E a crítica “especializada” tem que comparar. O Devendra já foi comparado até à Billie Holiday, e eu ainda não entendi de onde vem a semelhança. Engraçado demais isso. Ela, se resolver se remexer no túmulo cada vez que alguém a comparar com um artista novo. Uma dessas últimas foi com a Madeleine Peyroux. É verdade que a cantora tem um timbre que lembra o da Billie Holiday. E também que a imita descaradamente nas inflexões, nos fraseados, em tudo. Mas o pessoal acha isso bonito e faz juízo de valor em cima da semelhança do timbre. Mania chata, essa. É desrespeitoso com a veterana e desconcertante para “a nova Fulana de Tal”. Se bem que há quem ache que isso é elogio. Então, com o Devendra não poderia ser diferente. Melhor ouvir.

Quem souber onde eu encontro um mendigo desses, por gentileza, entre em contato.

domingo, 13 de março de 2011

Le Mond Vivant!





Eugène Green era um total estranho pra mim até um mês atrás, mas uma boa indicação cinematográfica me tirou das trevas do cinema. Ironias a parte, eu realmente não tinha ideia nenhuma da existência desse nova iorquino que aos 22 anos se mudou para Paris pra estudar Letras e História da Arte. Depois de passar pelo teatro e também ter uma atuação significativa como escritor, em 2001, fez seu primeiro filme, Toutes Le Nuits. Fato é que Green, apesar de ter uma importância crucial na história do cinema francês contemporâneo, não tem devido conhecimento aqui no país, sendo que somente no ano passado teve um filme seu exibido nos cinemas brasileiros, A Religiosa Portuguesa, que teve sua exibição na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Uma pena, pois o cinema desse diretor é algo expressiva e tocantemente belo.

Minha primeira experiência com o diretor foi o longa O Mundo Vivente, uma saga que alia o estilo das fábulas e dos contos de fada ao cinema sensorial, muito ligado a longos silêncios e atuações quase sem expressões. Fato é, o filme remete diretamente ao cinema, pouco compreendido pelo público e muito aclamado pela crítica, do mestre Robert Bresson. Desde a composição dos planos até o uso da trilha sonora, os resquícios das obras de Bresson são evidentes e muito bem utilizadas.

O filme conta a história de dois cavaleiros que buscam lutar contra um Ogro que tem domínio conjugal com duas donzelas. Parece simples, mas não é nenhum pouco, principalmente quando a simbologia utilizada na construção da obra não é nenhum pouco comum. Primeiro temos um figurino nada usual para o tempo-espaço em questão. As donzelas se vestem com longos vestidos, mas os cavaleiros estão numa camisa e calça jeans, espadas que parecem de brinquedo. O leão do cavaleiro na verdade é um cachorro da raça Golden Retriever. Mas não entenda isso no sentido de graça do diretor, mas sim de colocar um código de atemporalidade na obra e de não se prender as construções imagéticas comuns. As atuações são as mais gélidas possíveis, de olhares que dizem muito mais que qualquer expressão facial ou drama. E em dois únicos momentos em que elas escapam dessa regra, temos as sequencias mais epifânicas do filme. Numa delas – e talvez a mais bela do filme – só escutamos a respiração ofegante e o consequente choro da personagem, enquanto vemos duas mãos se tocando e entrelaçando-se no escuro.

Mas o ponto mais forte, não só do filme, mas da cinematografia do próprio Green, esta na importância que a palavra tem na sua obra. Resgatando esse cinema muito esquecido atualmente. (tão consagrado por Eric Rhomer e George Cukor) . No filme de Eugéne o diálogo e as palavras ecoadas não se encontram como mero artifício narrativo, elas ganham um sentido existencial e de limite ou a detração dele. “Tuas palavras nos uniram”. E por elas o abismo entre a vida e a morte ultrapassa a significação milagrosa, tornando-se algo natural, a força de uma palavra.

E com elas eu termino essa postagem:

“No mundo vivente,
o sopro do espírito
é o sopro do corpo”

O Mundo Vivente (Le Monde Vivant)
Direção: Eugène Green
Gênero: Drama/ Fantasia
Origem: França, 2003
Duração: 71 min