sexta-feira, 8 de julho de 2011

Ser brega é para os fortes!!!


Entre o final dos anos 70 e início dos 80, o programa do Chacrinha apresentou Sidney Magal, Odair José, Fernando Mendes. Fábio Júnior, Dalto, Marcos Sabino, Ritchie. Quando criança eu era fã principalmente do Magal e do Ritchie. A patrulha ideológica começava em casa: mãe, irmãos e até minha avó, que gostava daquela aberração do Agnaldo Timóteo, me censuravam. Acho que eles tinham medo de que eu me tornasse uma daquelas "macacas de auditório" que iam chorar na platéia do Chacrinha. Aquilo era um horror mesmo. Eu achava muito engraçado. Com os amigos, eu curtia o pop rock que surgia nos anos 90. Dividir a trdicional MPB com a pirralhada já era difícil. Assumir pros amigos que eu gostava de samba, que a família inteira curtia, era mais difícil ainda. Imagina música brega? Mas até hoje observo, nos bons finais de festa, que as pessoas conhecem o repertório cafona brasileiro e gostam. Fecham os olhos pra cantar, fazem gestos caricatos, brincam, pra não assumir, mas gostam.

E, felizmente, hoje tenho alguns amigos que curtem de verdade. Tem gente que acha que é modismo, zoação, mas não é. Outro dia, senti que o pai de um colega, que deve ter seus 55 anos, ficou decepcionadíssimo comigo porque eu falei que curtia Odair José. Por mais refinadas que sejam as referências musicais do indivíduo, todo mundo tem uma identificação com os traços dessa música exageradamente sentimental. Está no sangue latino, mas está no saxão e até no nipônico. Já ouviram as músicas japonesas da trilha de Kill Bill? Parece que saíram do México, do Uruguai.

Odair José é um dos meus preferidos. Sua música é simplória e inteligente. Muita gente acha banal, mas ninguém de sua época falou tanto das minorias com tanta clareza e sinceridade. E quem vendia, mesmo, nos anos 70, eram artistas como ele. Chico Buarque e Caetano Veloso, que por sinal apoiam esse tipo de música desde a Tropicália, eram considerados cult. E vendiam apenas para o público mais engajado, segundo Paulo César Araújo, autor do Livro Eu não Sou Cachorro Não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar. Outro emblemático: Waldick Soriano. Minha avó adorava Torturas de Amor. Mas eu me lembro dela falando assim: “Essa música é muito bonita. Será que é dele mesmo?” Olha que absurdo!

Magal foi criado por Paulo Coelho, quando este era produtor. Em Arrombou a Festa, do Paulo Coelho e da Rita Lee, ele mesmo arrasa sua criatura: “Cigano de araque fabricado até o pescoço.” É verdade. Mesmo assim, acho o Magal um artista fabuloso. Canta bem pra caramba, tem um swing impressionante e um excelente domínio de palco. Adoraria ser backing vocal dele.

Paulo Sérgio, como Odair José, alavancou sua carreira imitando Roberto Carlos. O trabalho dele não tem um décimo da qualidade do que o Roberto fazia na época. Os arranjos são precários, com teclado tosco imitando cordas. E o contrabaixo é sempre desafinado. Mas o cara era carismático e tinha uma musicalidade incrível. Era depressivo e foi um grande incentivador dos cortapulsos. Um dia, uma manicure me emprestou um cd dele. Levei para ouvir em casa à tarde. Uma colega me pediu: "por favor, tire esse CD porque eu estou ficando deprimida, com vontade de morrer". Ele tinha esse poder. O sucesso do Paulo Sérgio incomodou o Rei. O nome do álbum O Inimitável, de 1968, é uma referência à sua imitação descarada. Perla também é bacana, apesar de só ter gravado versões, inclusive dos suecos do ABBA, que também são cafonas demaise eu adoro. Ah, e gosto de uma música com a Kátia Cega. Maldade, mas já virou sobrenome mesmo. Ela canta muito mal, mas a interpretação de Lembranças, de Roberto e Erasmo, é bem legal.

Que fique bem claro: gosto de música brega autêntica, por mais complexo que isso seja, e com personalidade. Isso não tem nada a ver com pagode ruim, breganejo e afins.

Esse post é dedicado a Karen preta e a Gab's mullets! Inclusive o título do post é obra das duas
.
Então, com vocês, o cigano de araque e sua cigana Sandra Rosa Madalena. "Cantem!" "Comigo!"
http://www.youtube.com/watch?v=BZb0XDHDBQ0

terça-feira, 31 de maio de 2011

A Ressaca!

Nos últimos anos, a ode nerd em filmes tem dado bons frutos, principalmente em projetos de comédia. É justamente para esse nicho que “A Ressaca” foi feito, tentando ainda contemplar os amantes dos anos 80 e seus exageros apaixonantes.
O filme conta a história de três amigos de infância que não se vêem há muito tempo e que, angustiados com suas próprias vidas, resolvem fazer uma viagem para retomar a amizade. Lá, embarcam de volta aos anos 80.
A primeira reação ao ver o trailer e o cartaz de “A Ressaca” é compará-lo a “Se Beber Não Case”, o que é um erro tremendo. Aliás, o próprio estúdio tentou vender o filme assim para ir na carona do sucesso do seu par, mas a verdade é que a premissa de “A Ressaca” é diferente. Isso pode soar como um insulto ao filme, mas eu achei ele uma versão masculina de “De Repente 30”. Isto é, se nesse último o foco é mais romântico e tem uma história mais amarradinha, o outro é, além de #nerdpride e #80spride, um típico exemplar da comédia em que os personagens enfrentam altas aventuras do barulho (valeu, @marciosmelo).
Somos apresentados, então, aos três amigos: Adam (John Cusack) está se divorciando e tem a companhia do sobrinho bobão Jacob (Clark Duke), que vive em seu porão. Nick (Craig Robinson) largou uma carreira promissora de cantor para trabalhar numa pet shop, enquanto Lou (Rob Cordry) é o doidão da turma, inconseqüente e pronto para entrar em qualquer confusão. São esses os personagens que vão viajar no tempo através de uma jacuzzi, que fica no quarto de um hotel em que, no passado, os amigos costumavam passar momentos inesquecíveis de férias. O cenário atual, no entanto, aponta para a decadência do local, pouco visitado e que em nada lembra os anos 80.
Os caras são levados para o passado, justamente numa festa em 1986 em que vários fatos importantes aconteceram da vida de cada um. A ideia é terminar a noite sem mudar nada do que aconteceu, mas é claro que não é isso que veremos na tela. Várias confusões e, como bem manda a atual cartilha de Todd Phillips e Jude Apatow, referências aos montes à década de 80, games, filmes e cultura nerd em geral. Para quem gosta disso tudo, o filme é um prato cheio. Foi por isso que fui chamado a atenção, mas faltou mais tempero ao roteiro e um trato melhor em algumas cenas. “A Ressaca” é rodado quase que em sua totalidade em estúdio, o que nunca é bom para um filme. Poucas cenas externas tiram o brilho e a dinâmica de várias cenas, mas também não é algo que vá torná-lo uma porcaria.
Jogando com essas referências, mesmo “A Ressaca” não tendo um roteiro genial nem original, cumpre o papel de diversos momentos engraçados e referências inteligentes – que torna tudo bem mais divertido para o espectador, que tenta acompanhar as citações e relembrar momentos hilários dos anos 80.

Nos últimos anos, a ode nerd em filmes tem dado bons frutos, principalmente em projetos de comédia. É justamente para esse nicho que “A Ressaca” foi feito, tentando ainda contemplar os amantes dos anos 80 e seus exageros apaixonantes.

O filme conta a história de três amigos de infância que não se vêem há muito tempo e que, angustiados com suas próprias vidas, resolvem fazer uma viagem para retomar a amizade. Lá, embarcam de volta aos anos 80.

A primeira reação ao ver o trailer e o cartaz de “A Ressaca” é compará-lo a “Se Beber Não Case”, o que é um erro tremendo. Aliás, o próprio estúdio tentou vender o filme assim para ir na carona do sucesso do seu par, mas a verdade é que a premissa de “A Ressaca” é diferente. Isso pode soar como um insulto ao filme, mas eu achei ele uma versão masculina de “De Repente 30”. Isto é, se nesse último o foco é mais romântico e tem uma história mais amarradinha, o outro é, além de #nerdpride e #80spride, um típico exemplar da comédia em que os personagens enfrentam altas aventuras do barulho.

Somos apresentados, então, aos três amigos: Adam (John Cusack) está se divorciando e tem a companhia do sobrinho bobão Jacob (Clark Duke), que vive em seu porão. Nick (Craig Robinson) largou uma carreira promissora de cantor para trabalhar numa pet shop, enquanto Lou (Rob Cordry) é o doidão da turma, inconseqüente e pronto para entrar em qualquer confusão. São esses os personagens que vão viajar no tempo através de uma jacuzzi, que fica no quarto de um hotel em que, no passado, os amigos costumavam passar momentos inesquecíveis de férias. O cenário atual, no entanto, aponta para a decadência do local, pouco visitado e que em nada lembra os anos 80.

Os caras são levados para o passado, justamente numa festa em 1986 em que vários fatos importantes aconteceram da vida de cada um. A ideia é terminar a noite sem mudar nada do que aconteceu, mas é claro que não é isso que veremos na tela. Várias confusões e, como bem manda a atual cartilha de Todd Phillips e Jude Apatow, referências aos montes à década de 80, games, filmes e cultura nerd em geral. Para quem gosta disso tudo, o filme é um prato cheio. Foi por isso que fui chamada a atenção, mas faltou mais tempero ao roteiro e um trato melhor em algumas cenas. “A Ressaca” é rodado quase que em sua totalidade em estúdio, o que nunca é bom para um filme. Poucas cenas externas tiram o brilho e a dinâmica de várias cenas, mas também não é algo que vá torná-lo ruim.

Jogando com essas referências, mesmo “A Ressaca” não tendo um roteiro genial nem original, cumpre o papel de diversos momentos engraçados e referências inteligentes – que torna tudo bem mais divertido para o espectador, que tenta acompanhar as citações e relembrar momentos hilários dos anos 80.


direção: Steve Pink

elenco : John Cusak, Clark Duke, Craing Robinson, Rob Corddry
país
: EUA
gênero
: comédia
ano
: 2010
nome original:
Hot Tub Time Machine

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Gentileza gera gentileza!


A música não é o que eu chamaria de muito boa. Lembra hinos religiosos no ritmo, na melodia boba, quase monocórdia. E a história dele não é mais novidade. Um homem que não passou despercebido na rotina do Rio de Janeiro. Anos 60, José Datrino, depois de presenciar um incêndio em um circo, que matou mais de 500 pessoas, decidiu largar o pouco que tinha e virar andarilho. Distribuía rosas, vinho e palavras às pessoas. Chamava a todos de “Gentileza”. E, por isso, ganhou este nome. Não faço idéia do que aconteceu na cabeça desse homem, mas, provavelmente, a tragédia o tornou diferente. E, mais ainda, ele se permitiu mudar, seguir outro caminho e se dedicar apenas ao que interessa. Caminho difícil esse. Despir de tudo pra se dedicar à gentileza. Talvez por estar tão longe disso, tenho admiração por quem consegue transmitir o bem e o conforto em tudo o que faz. O que essas pessoas têm de melhor se vê nos olhos. Certamente, antes de sua voz, flores e gestos, os olhos desse andarilho falavam do bem. Como falam os olhos de tanta gente que anda por aí. Olhos de conforto, de paz e de amor somente.

Estou longe de ser um pouco “Gentileza”. Quero também o efêmero, o que é importante só hoje, o que não interessa. Sou deste mundo. Deste mesmo. Quero a minha paz primeiro. E isso pode não ser nada gentil.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Me de a mão, vamos sair pra ver o sol...



Espero um vento forte que me leve a outro rumo quando o mundo pegar o sul.
Levo as músicas que me traz e as que eu te dou.
À tarde, quero sentir sua falta, sabendo da sua vinda.
Te espero pra te aquecer neste primeiro inverno. E pra ganhar seus pés.
Te levo pra uma casa branca, em uma estrada que leva sempre à verdade.
Lá, a gente corre e olha o céu azul e o sol, que não para de brilhar.
Lá, a gente ouve Cartola e fala de Roberto Carlos.
Levo seus pequenos olhos. Nada pálidos, nada azuis. Tão imensos.
Como a Dolores, que fazia tudo “até morrer”, lá eu morro de tudo o que eu quiser.
"Sem pensar no que foi que sonhei, que chorei, que sofri".
Sem pensar se o que eu deixei pra trás não foi pouco.
O que eu tenho é sempre muito.
Quero o transitivo e o intransitivo do verbo.
Pra te querer muito mais.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Eu tenho um beijo preso na garganta. Eu tenho um jeito de quem não se espanta.


Recebi um e-mail do amigo Hélio Aroeira. Ele sempre manda coisas bacanas. Caí no choro lendo o texto do Caetano que conta, com riqueza de detalhes, o encontro entre ele e o pai de Torquato Neto. Caetano estava em turnê do show Muito, em Teresina. Seu Eli o procurou e, segundo Caetano, este foi o momento em que ele caiu da “dureza amarga” que sentiu quando soube do suicídio de Torquato. Já se passavam quatro anos da tragédia. E só aí Caetano chorou (copiosamente) a morte do amigo e parceiro. Foi consolado por seu Eli, que lhe deu uma “rosa pequenina”. E, no dia seguinte, compôs a música Cajuína.

Torquato Neto é um dos esquecidos do Tropicalismo. Digo esquecidos porque as pessoas, em geral, só se lembram de Caetano, Gil, Gal, Bethânia e Os Mutantes. E só há uns dez anos ou pouco mais conheceram o Tom Zé - graças ao David Byrne.

Torquato compôs quase cinquenta músicas em parceria com Caetano, Edu Lobo, Gilberto Gil, Nonato Buzar, Roberto Menescal e muito mais gente. É parceiro póstumo do Sérgio Brito do Titãs, em Go Back. E, junto com Edu Lobo, compôs a “dor de cotovelo” mais bonita do mundo: Pra Dizer Adeus. Gosto dele porque suas poesias não são mornas. Vão de um extremo a outro. Cortantes, contundentes, como é Mamãe, Coragem, parceria com Caetano, ou muito ternas, como é Um dia Desses, dele e do Paulo Diniz, que a Adriana Calcanhoto gravou lindamente.

Como um suicida que se preza, Torquato deixou uma carta. Dizia: "Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar". Thiago era o filho de Torquato. Com este aviso, parece que ele tentava protegê-lo de uma visão como a dele da realidade. Me parece aquela máxima: “felizes são os ignorantes” ou os que dormem. É duro e extremo. Mas quem tem um "beijo preso" precisa dormir um pouco às vezes. Ou pelo menos sossegar. Eu acho.

Abaixo tem um vídeo de um especial que a Globo fez em homenagem ao Torquato Neto. Gal, cantando Mamãe, Coragem, ao lado do Macalé, Wagner Tiso, Luisão e Pascoal Meireles. E Um dia Desses, com Adriana Calcanhoto e Kassin.

http://migre.me/Jxe1
http://migre.me/Jzdc