sexta-feira, 8 de julho de 2011

Ser brega é para os fortes!!!


Entre o final dos anos 70 e início dos 80, o programa do Chacrinha apresentou Sidney Magal, Odair José, Fernando Mendes. Fábio Júnior, Dalto, Marcos Sabino, Ritchie. Quando criança eu era fã principalmente do Magal e do Ritchie. A patrulha ideológica começava em casa: mãe, irmãos e até minha avó, que gostava daquela aberração do Agnaldo Timóteo, me censuravam. Acho que eles tinham medo de que eu me tornasse uma daquelas "macacas de auditório" que iam chorar na platéia do Chacrinha. Aquilo era um horror mesmo. Eu achava muito engraçado. Com os amigos, eu curtia o pop rock que surgia nos anos 90. Dividir a trdicional MPB com a pirralhada já era difícil. Assumir pros amigos que eu gostava de samba, que a família inteira curtia, era mais difícil ainda. Imagina música brega? Mas até hoje observo, nos bons finais de festa, que as pessoas conhecem o repertório cafona brasileiro e gostam. Fecham os olhos pra cantar, fazem gestos caricatos, brincam, pra não assumir, mas gostam.

E, felizmente, hoje tenho alguns amigos que curtem de verdade. Tem gente que acha que é modismo, zoação, mas não é. Outro dia, senti que o pai de um colega, que deve ter seus 55 anos, ficou decepcionadíssimo comigo porque eu falei que curtia Odair José. Por mais refinadas que sejam as referências musicais do indivíduo, todo mundo tem uma identificação com os traços dessa música exageradamente sentimental. Está no sangue latino, mas está no saxão e até no nipônico. Já ouviram as músicas japonesas da trilha de Kill Bill? Parece que saíram do México, do Uruguai.

Odair José é um dos meus preferidos. Sua música é simplória e inteligente. Muita gente acha banal, mas ninguém de sua época falou tanto das minorias com tanta clareza e sinceridade. E quem vendia, mesmo, nos anos 70, eram artistas como ele. Chico Buarque e Caetano Veloso, que por sinal apoiam esse tipo de música desde a Tropicália, eram considerados cult. E vendiam apenas para o público mais engajado, segundo Paulo César Araújo, autor do Livro Eu não Sou Cachorro Não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar. Outro emblemático: Waldick Soriano. Minha avó adorava Torturas de Amor. Mas eu me lembro dela falando assim: “Essa música é muito bonita. Será que é dele mesmo?” Olha que absurdo!

Magal foi criado por Paulo Coelho, quando este era produtor. Em Arrombou a Festa, do Paulo Coelho e da Rita Lee, ele mesmo arrasa sua criatura: “Cigano de araque fabricado até o pescoço.” É verdade. Mesmo assim, acho o Magal um artista fabuloso. Canta bem pra caramba, tem um swing impressionante e um excelente domínio de palco. Adoraria ser backing vocal dele.

Paulo Sérgio, como Odair José, alavancou sua carreira imitando Roberto Carlos. O trabalho dele não tem um décimo da qualidade do que o Roberto fazia na época. Os arranjos são precários, com teclado tosco imitando cordas. E o contrabaixo é sempre desafinado. Mas o cara era carismático e tinha uma musicalidade incrível. Era depressivo e foi um grande incentivador dos cortapulsos. Um dia, uma manicure me emprestou um cd dele. Levei para ouvir em casa à tarde. Uma colega me pediu: "por favor, tire esse CD porque eu estou ficando deprimida, com vontade de morrer". Ele tinha esse poder. O sucesso do Paulo Sérgio incomodou o Rei. O nome do álbum O Inimitável, de 1968, é uma referência à sua imitação descarada. Perla também é bacana, apesar de só ter gravado versões, inclusive dos suecos do ABBA, que também são cafonas demaise eu adoro. Ah, e gosto de uma música com a Kátia Cega. Maldade, mas já virou sobrenome mesmo. Ela canta muito mal, mas a interpretação de Lembranças, de Roberto e Erasmo, é bem legal.

Que fique bem claro: gosto de música brega autêntica, por mais complexo que isso seja, e com personalidade. Isso não tem nada a ver com pagode ruim, breganejo e afins.

Esse post é dedicado a Karen preta e a Gab's mullets! Inclusive o título do post é obra das duas
.
Então, com vocês, o cigano de araque e sua cigana Sandra Rosa Madalena. "Cantem!" "Comigo!"
http://www.youtube.com/watch?v=BZb0XDHDBQ0

terça-feira, 31 de maio de 2011

A Ressaca!

Nos últimos anos, a ode nerd em filmes tem dado bons frutos, principalmente em projetos de comédia. É justamente para esse nicho que “A Ressaca” foi feito, tentando ainda contemplar os amantes dos anos 80 e seus exageros apaixonantes.
O filme conta a história de três amigos de infância que não se vêem há muito tempo e que, angustiados com suas próprias vidas, resolvem fazer uma viagem para retomar a amizade. Lá, embarcam de volta aos anos 80.
A primeira reação ao ver o trailer e o cartaz de “A Ressaca” é compará-lo a “Se Beber Não Case”, o que é um erro tremendo. Aliás, o próprio estúdio tentou vender o filme assim para ir na carona do sucesso do seu par, mas a verdade é que a premissa de “A Ressaca” é diferente. Isso pode soar como um insulto ao filme, mas eu achei ele uma versão masculina de “De Repente 30”. Isto é, se nesse último o foco é mais romântico e tem uma história mais amarradinha, o outro é, além de #nerdpride e #80spride, um típico exemplar da comédia em que os personagens enfrentam altas aventuras do barulho (valeu, @marciosmelo).
Somos apresentados, então, aos três amigos: Adam (John Cusack) está se divorciando e tem a companhia do sobrinho bobão Jacob (Clark Duke), que vive em seu porão. Nick (Craig Robinson) largou uma carreira promissora de cantor para trabalhar numa pet shop, enquanto Lou (Rob Cordry) é o doidão da turma, inconseqüente e pronto para entrar em qualquer confusão. São esses os personagens que vão viajar no tempo através de uma jacuzzi, que fica no quarto de um hotel em que, no passado, os amigos costumavam passar momentos inesquecíveis de férias. O cenário atual, no entanto, aponta para a decadência do local, pouco visitado e que em nada lembra os anos 80.
Os caras são levados para o passado, justamente numa festa em 1986 em que vários fatos importantes aconteceram da vida de cada um. A ideia é terminar a noite sem mudar nada do que aconteceu, mas é claro que não é isso que veremos na tela. Várias confusões e, como bem manda a atual cartilha de Todd Phillips e Jude Apatow, referências aos montes à década de 80, games, filmes e cultura nerd em geral. Para quem gosta disso tudo, o filme é um prato cheio. Foi por isso que fui chamado a atenção, mas faltou mais tempero ao roteiro e um trato melhor em algumas cenas. “A Ressaca” é rodado quase que em sua totalidade em estúdio, o que nunca é bom para um filme. Poucas cenas externas tiram o brilho e a dinâmica de várias cenas, mas também não é algo que vá torná-lo uma porcaria.
Jogando com essas referências, mesmo “A Ressaca” não tendo um roteiro genial nem original, cumpre o papel de diversos momentos engraçados e referências inteligentes – que torna tudo bem mais divertido para o espectador, que tenta acompanhar as citações e relembrar momentos hilários dos anos 80.

Nos últimos anos, a ode nerd em filmes tem dado bons frutos, principalmente em projetos de comédia. É justamente para esse nicho que “A Ressaca” foi feito, tentando ainda contemplar os amantes dos anos 80 e seus exageros apaixonantes.

O filme conta a história de três amigos de infância que não se vêem há muito tempo e que, angustiados com suas próprias vidas, resolvem fazer uma viagem para retomar a amizade. Lá, embarcam de volta aos anos 80.

A primeira reação ao ver o trailer e o cartaz de “A Ressaca” é compará-lo a “Se Beber Não Case”, o que é um erro tremendo. Aliás, o próprio estúdio tentou vender o filme assim para ir na carona do sucesso do seu par, mas a verdade é que a premissa de “A Ressaca” é diferente. Isso pode soar como um insulto ao filme, mas eu achei ele uma versão masculina de “De Repente 30”. Isto é, se nesse último o foco é mais romântico e tem uma história mais amarradinha, o outro é, além de #nerdpride e #80spride, um típico exemplar da comédia em que os personagens enfrentam altas aventuras do barulho.

Somos apresentados, então, aos três amigos: Adam (John Cusack) está se divorciando e tem a companhia do sobrinho bobão Jacob (Clark Duke), que vive em seu porão. Nick (Craig Robinson) largou uma carreira promissora de cantor para trabalhar numa pet shop, enquanto Lou (Rob Cordry) é o doidão da turma, inconseqüente e pronto para entrar em qualquer confusão. São esses os personagens que vão viajar no tempo através de uma jacuzzi, que fica no quarto de um hotel em que, no passado, os amigos costumavam passar momentos inesquecíveis de férias. O cenário atual, no entanto, aponta para a decadência do local, pouco visitado e que em nada lembra os anos 80.

Os caras são levados para o passado, justamente numa festa em 1986 em que vários fatos importantes aconteceram da vida de cada um. A ideia é terminar a noite sem mudar nada do que aconteceu, mas é claro que não é isso que veremos na tela. Várias confusões e, como bem manda a atual cartilha de Todd Phillips e Jude Apatow, referências aos montes à década de 80, games, filmes e cultura nerd em geral. Para quem gosta disso tudo, o filme é um prato cheio. Foi por isso que fui chamada a atenção, mas faltou mais tempero ao roteiro e um trato melhor em algumas cenas. “A Ressaca” é rodado quase que em sua totalidade em estúdio, o que nunca é bom para um filme. Poucas cenas externas tiram o brilho e a dinâmica de várias cenas, mas também não é algo que vá torná-lo ruim.

Jogando com essas referências, mesmo “A Ressaca” não tendo um roteiro genial nem original, cumpre o papel de diversos momentos engraçados e referências inteligentes – que torna tudo bem mais divertido para o espectador, que tenta acompanhar as citações e relembrar momentos hilários dos anos 80.


direção: Steve Pink

elenco : John Cusak, Clark Duke, Craing Robinson, Rob Corddry
país
: EUA
gênero
: comédia
ano
: 2010
nome original:
Hot Tub Time Machine

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Gentileza gera gentileza!


A música não é o que eu chamaria de muito boa. Lembra hinos religiosos no ritmo, na melodia boba, quase monocórdia. E a história dele não é mais novidade. Um homem que não passou despercebido na rotina do Rio de Janeiro. Anos 60, José Datrino, depois de presenciar um incêndio em um circo, que matou mais de 500 pessoas, decidiu largar o pouco que tinha e virar andarilho. Distribuía rosas, vinho e palavras às pessoas. Chamava a todos de “Gentileza”. E, por isso, ganhou este nome. Não faço idéia do que aconteceu na cabeça desse homem, mas, provavelmente, a tragédia o tornou diferente. E, mais ainda, ele se permitiu mudar, seguir outro caminho e se dedicar apenas ao que interessa. Caminho difícil esse. Despir de tudo pra se dedicar à gentileza. Talvez por estar tão longe disso, tenho admiração por quem consegue transmitir o bem e o conforto em tudo o que faz. O que essas pessoas têm de melhor se vê nos olhos. Certamente, antes de sua voz, flores e gestos, os olhos desse andarilho falavam do bem. Como falam os olhos de tanta gente que anda por aí. Olhos de conforto, de paz e de amor somente.

Estou longe de ser um pouco “Gentileza”. Quero também o efêmero, o que é importante só hoje, o que não interessa. Sou deste mundo. Deste mesmo. Quero a minha paz primeiro. E isso pode não ser nada gentil.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Me de a mão, vamos sair pra ver o sol...



Espero um vento forte que me leve a outro rumo quando o mundo pegar o sul.
Levo as músicas que me traz e as que eu te dou.
À tarde, quero sentir sua falta, sabendo da sua vinda.
Te espero pra te aquecer neste primeiro inverno. E pra ganhar seus pés.
Te levo pra uma casa branca, em uma estrada que leva sempre à verdade.
Lá, a gente corre e olha o céu azul e o sol, que não para de brilhar.
Lá, a gente ouve Cartola e fala de Roberto Carlos.
Levo seus pequenos olhos. Nada pálidos, nada azuis. Tão imensos.
Como a Dolores, que fazia tudo “até morrer”, lá eu morro de tudo o que eu quiser.
"Sem pensar no que foi que sonhei, que chorei, que sofri".
Sem pensar se o que eu deixei pra trás não foi pouco.
O que eu tenho é sempre muito.
Quero o transitivo e o intransitivo do verbo.
Pra te querer muito mais.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Eu tenho um beijo preso na garganta. Eu tenho um jeito de quem não se espanta.


Recebi um e-mail do amigo Hélio Aroeira. Ele sempre manda coisas bacanas. Caí no choro lendo o texto do Caetano que conta, com riqueza de detalhes, o encontro entre ele e o pai de Torquato Neto. Caetano estava em turnê do show Muito, em Teresina. Seu Eli o procurou e, segundo Caetano, este foi o momento em que ele caiu da “dureza amarga” que sentiu quando soube do suicídio de Torquato. Já se passavam quatro anos da tragédia. E só aí Caetano chorou (copiosamente) a morte do amigo e parceiro. Foi consolado por seu Eli, que lhe deu uma “rosa pequenina”. E, no dia seguinte, compôs a música Cajuína.

Torquato Neto é um dos esquecidos do Tropicalismo. Digo esquecidos porque as pessoas, em geral, só se lembram de Caetano, Gil, Gal, Bethânia e Os Mutantes. E só há uns dez anos ou pouco mais conheceram o Tom Zé - graças ao David Byrne.

Torquato compôs quase cinquenta músicas em parceria com Caetano, Edu Lobo, Gilberto Gil, Nonato Buzar, Roberto Menescal e muito mais gente. É parceiro póstumo do Sérgio Brito do Titãs, em Go Back. E, junto com Edu Lobo, compôs a “dor de cotovelo” mais bonita do mundo: Pra Dizer Adeus. Gosto dele porque suas poesias não são mornas. Vão de um extremo a outro. Cortantes, contundentes, como é Mamãe, Coragem, parceria com Caetano, ou muito ternas, como é Um dia Desses, dele e do Paulo Diniz, que a Adriana Calcanhoto gravou lindamente.

Como um suicida que se preza, Torquato deixou uma carta. Dizia: "Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar". Thiago era o filho de Torquato. Com este aviso, parece que ele tentava protegê-lo de uma visão como a dele da realidade. Me parece aquela máxima: “felizes são os ignorantes” ou os que dormem. É duro e extremo. Mas quem tem um "beijo preso" precisa dormir um pouco às vezes. Ou pelo menos sossegar. Eu acho.

Abaixo tem um vídeo de um especial que a Globo fez em homenagem ao Torquato Neto. Gal, cantando Mamãe, Coragem, ao lado do Macalé, Wagner Tiso, Luisão e Pascoal Meireles. E Um dia Desses, com Adriana Calcanhoto e Kassin.

http://migre.me/Jxe1
http://migre.me/Jzdc

sábado, 26 de março de 2011

Se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais.,..


Coisa esquisita, esse Devendra Banhart. Tive a grata surpresa de descobrí-lo quando buscava o Rodrigo Amarante no google. Ele canta uma música no disco do Devendra. Na busca, dei de cara com esta foto. Achei que o figurino fosse de odalisca. Mas é de Carmem Miranda.

O Devendra é texano, é filho de indianos, foi criado na Venezuela e hoje mora em San Francisco. Canta em inglês, espanhol e em português também. Entre seus ídolos estão Bob Dylan, Caetano Veloso, Mutantes e Secos e Molhados. Nas suas músicas, a gente percebe essas e outras influências. Ele mesmo fala de todas. Ele é debochado. Disse que queria gravar um disco em brasileiro, não em português. Cada música é muito diferente da outra. No CD que baixei, Smokey Rolls Down Thunder Canyon, tem rock, samba (tem que avisar que é samba), tem um coro gospel e traços da música oriental em vários momentos. Tem uma que é puro Stan Getz, outra lembra Led Zeppelin. Em outra, ele canta o “din gon din gon gon din din” de “Acabou Chorare”. Tem também um rockezinho romântico anos 60.

O som não tem nada de novo e é muito bom. A gente percebe que o cara canta e compõe o que gosta e pronto. Enquanto procurava saber mais sobre ele, encontrei várias definições: roqueiro, roqueiro-folk, tosco, psicodélico, hippie, étnico, zen e mendigo são só algumas. É impressionante a mania que as pessoas têm de rotular quem não quer rótulo. E a crítica “especializada” tem que comparar. O Devendra já foi comparado até à Billie Holiday, e eu ainda não entendi de onde vem a semelhança. Engraçado demais isso. Ela, se resolver se remexer no túmulo cada vez que alguém a comparar com um artista novo. Uma dessas últimas foi com a Madeleine Peyroux. É verdade que a cantora tem um timbre que lembra o da Billie Holiday. E também que a imita descaradamente nas inflexões, nos fraseados, em tudo. Mas o pessoal acha isso bonito e faz juízo de valor em cima da semelhança do timbre. Mania chata, essa. É desrespeitoso com a veterana e desconcertante para “a nova Fulana de Tal”. Se bem que há quem ache que isso é elogio. Então, com o Devendra não poderia ser diferente. Melhor ouvir.

Quem souber onde eu encontro um mendigo desses, por gentileza, entre em contato.

domingo, 13 de março de 2011

Le Mond Vivant!





Eugène Green era um total estranho pra mim até um mês atrás, mas uma boa indicação cinematográfica me tirou das trevas do cinema. Ironias a parte, eu realmente não tinha ideia nenhuma da existência desse nova iorquino que aos 22 anos se mudou para Paris pra estudar Letras e História da Arte. Depois de passar pelo teatro e também ter uma atuação significativa como escritor, em 2001, fez seu primeiro filme, Toutes Le Nuits. Fato é que Green, apesar de ter uma importância crucial na história do cinema francês contemporâneo, não tem devido conhecimento aqui no país, sendo que somente no ano passado teve um filme seu exibido nos cinemas brasileiros, A Religiosa Portuguesa, que teve sua exibição na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Uma pena, pois o cinema desse diretor é algo expressiva e tocantemente belo.

Minha primeira experiência com o diretor foi o longa O Mundo Vivente, uma saga que alia o estilo das fábulas e dos contos de fada ao cinema sensorial, muito ligado a longos silêncios e atuações quase sem expressões. Fato é, o filme remete diretamente ao cinema, pouco compreendido pelo público e muito aclamado pela crítica, do mestre Robert Bresson. Desde a composição dos planos até o uso da trilha sonora, os resquícios das obras de Bresson são evidentes e muito bem utilizadas.

O filme conta a história de dois cavaleiros que buscam lutar contra um Ogro que tem domínio conjugal com duas donzelas. Parece simples, mas não é nenhum pouco, principalmente quando a simbologia utilizada na construção da obra não é nenhum pouco comum. Primeiro temos um figurino nada usual para o tempo-espaço em questão. As donzelas se vestem com longos vestidos, mas os cavaleiros estão numa camisa e calça jeans, espadas que parecem de brinquedo. O leão do cavaleiro na verdade é um cachorro da raça Golden Retriever. Mas não entenda isso no sentido de graça do diretor, mas sim de colocar um código de atemporalidade na obra e de não se prender as construções imagéticas comuns. As atuações são as mais gélidas possíveis, de olhares que dizem muito mais que qualquer expressão facial ou drama. E em dois únicos momentos em que elas escapam dessa regra, temos as sequencias mais epifânicas do filme. Numa delas – e talvez a mais bela do filme – só escutamos a respiração ofegante e o consequente choro da personagem, enquanto vemos duas mãos se tocando e entrelaçando-se no escuro.

Mas o ponto mais forte, não só do filme, mas da cinematografia do próprio Green, esta na importância que a palavra tem na sua obra. Resgatando esse cinema muito esquecido atualmente. (tão consagrado por Eric Rhomer e George Cukor) . No filme de Eugéne o diálogo e as palavras ecoadas não se encontram como mero artifício narrativo, elas ganham um sentido existencial e de limite ou a detração dele. “Tuas palavras nos uniram”. E por elas o abismo entre a vida e a morte ultrapassa a significação milagrosa, tornando-se algo natural, a força de uma palavra.

E com elas eu termino essa postagem:

“No mundo vivente,
o sopro do espírito
é o sopro do corpo”

O Mundo Vivente (Le Monde Vivant)
Direção: Eugène Green
Gênero: Drama/ Fantasia
Origem: França, 2003
Duração: 71 min

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Quem desce do morro não morre no asfalto...

Entre os anos 70 e 80, Morais Moreira, junto com Caetano Veloso, Armandinho, A Cor do Som e Pepeu Gomes, ajudaram a projetar o carnaval baiano para o resto do Brasil. Guitarra eletrizante, solos sensacionais que ficaram gravados na memória do brasileiro que parava onde estivesse pra ouvir. E, se pudesse, saía dançando. Letras lindas que diziam mais do que podiam, às vezes driblando a censura, com muita poesia. Era um carnaval extasiante que, visto de baixo dos trios-elétricos, tinha a cara de Dodô e Osmar. Visto de cima, tinha a cara de quem acabava de chegar com muita energia pra viver o melhor da vida. Saudosismo meu, pode ser. Se eu tivesse trinta anos a mais, talvez estivesse lamentando a falta das marchinhas, dos bailes de salão, do confete e da serpentina. E, daqui 20 anos, alguém há de lamentar a falta de Ivete Sangalo e Daniela Mercury no carnaval baiano/brasileiro.
Sinto falta de alguma coisa que se perdeu em algum lugar. Sinto falta do velho carnaval da Bahia, que eu nem cheguei a ver de perto, mas que influenciou a minha tradução dessa festa. Sinto falta dos becos mineiros, de ouvir Estrela de Madureira nos botecos. “Do cavaco, do pandeiro e do tamborim”. Sinto falta dos belíssimos sambas-de-enredo que as escolas cariocas apresentavam. E o curioso é que onde está o bom samba ou frevo de carnaval se vê gente animada de todas as idades, descobrindo ou relembrando as maravilhas que essa música tem. Menos no carnaval. Onde será que ele se esconde nessa época? Será que sai de casa para alugar os quartos e ganhar dinheiro? Morre no asfalto?
O máximo que se pode ver é o pessoal do Axé abrindo espaço para a velha guarda, em homenagens mais que merecidas, mas que a colocam onde não lhe convém: em um quadro amarelado na parede. O máximo que se vê são os blocos diurnos do Rio de Janeiro: Banda de Ipanema, Cacique de Ramos, Sovaco do Cristo e Monobloco, resistência do bom samba que, felizmente, a cada ano arrasta mais gente. É a Orquestra Imperial no pré-carnaval. E tudo isso é sucesso. Menos na nata do carnaval. Só por curiosidade, o Morais Moreira, que escreveu uma belíssima página de nossa história musical, foi tratado há pouco tempo por uma revista de celebridades como "o pai (também músico) de Davi Morais (ex-namorado de Ivete Sangalo)". E esta foto aí não tem nada a ver com Carnaval, mas foi a melhor dele que eu encontrei no Google. Se tem alguém que não o conhece (vai saber), ele é quem está entre Fagner e Zé Ramalho. E, em primeiríssimo plano, está Jackson do Pandeiro, que foi influência para os três e para muito mais gente. “Não se perca de mim, não se esqueça de mim, não desapareça!” Tão lindo isso. E faz tanto sentido quando o que se quer é dividir o máximo de emoção e de alegria dos velhos carnavais. Este ano, vou procurar minha turma num baile da terceira idade.

Mas por enquanto vou me guardando pra quando o carnaval chegar....

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O meu malvado Favorito!




Faz um bom tempo que a ‘fórmula’ Disney, e depois refeita pela Pixar, acabou nos cinemas, onde os heróis eram salvadores da pátria, a princesa indefesa ficava a espera de salvação e os diabólicos vilões maquinavam seus planos perversos. Hoje em dia, as animações para telona deixaram de ter como público-alvo as crianças , e passaram a desenvolver mais seus roteiros para ganhar os pais acompanhantes. A própria Pixar faz isso maravilhosamente bem, colocando pontos fortes em uma história e deixando um pouco o alívio cômico – e criaturas bizarras – para os ‘baixinhos’.

O cinema atual se aproveita das duas fórmulas e não faz feio para ninguém: alimenta os sonhos infantis e coloca uma história envolvente e dramática em tudo. Foi assim com a DreamWorks e seu Shrek; foi assim com a Blue Sky Studios e seu Era do Gelo. Mas seria possível entrar nesse ramo sem bater de frente com todos os envolvidos? E se sair bem?

Respondo com uma certeza absoluta e agora mesmo:sim!

Meu Malvado Favorito (Despicable Me, no original) é a animação de estreia da novata no mercado,Illumination Entertainment, empresa fundada pelo ex-presidente da 20th Century Fox Animation, Chris Meledandri, responsável pelos clássicos: A Era do Gelo (distribuidora), Simpsons – O Filme, Robôs, entre outros. Então, nada melhor do que confiar em uma pessoa que conhece o gênero das animações e aposta alto para seu sucesso.

Gru é um vilão diabólico (olha a referência!) que enfrenta qualquer coisa para fazer o que sabe de melhor: roubar… filas e vagas de estacionamento. No filme, descobrimos que alguém anda roubando os monumentos históricos e Gru, na sua melhor forma, só consegue congelar pessoas e ganhar um café mais rápido. Sabendo do caso, e de quem está por trás do mistério, ele resolve promover o maior roubo de todos:encolher a Lua. Mas ele precisa de um pequeno empréstimo no Banco dos SuperVilões para construir seu foguete e usar sua máquina encolhedora.

Nesse meio tempo de espera, Gru conhece Vector, o mais novo supervilão do pedaço, que lhe rouba a arma para encolher a Lua e foge para sua casa cheia de armadilhas. Com o tempo do empréstimo se esgotando, Gru vigia a casa de Vector e bola um plano perfeito: adotar as três pequenas meninas que sempre vendem doces na porta de seu rival, para que elas, Margo, Edith e Agnes, o ajudem a roubar de volta a arma encolhedora e assim realizar o roubo da Lua. Não preciso nem dizer que as três meninas irão mostrar a Gru o quanto é importante ter – e ser - uma família feliz, fazendo-o lembrar de seu passado triste e conquistando um espaço reservado no coração gelado do vilão.


Vale destacar também, que o filme foi pensado para o 3D, não o‘mágico 3D’ que todos dizem, mas aquele que personagens pulam na sua frente, objetos voam na direção da plateia e as animações ficam mais ricas e fantásticas para as crianças. Pude perceber isso apenas no final do filme (que assisti em 2D mesmo), quando aparece um curta-metragem com os Minions. Nele, os bichinhos amarelos estão a beira de um penhasco e por serem malucos demais, tentam de qualquer forma chegar mais longe do que o outro, utilizando escadas, varas de pesca, andaimes. Tudo em direção ao público e ali, com os óculos de 3D, ficaria muito mais divertido.

A história do filme pode parecer confusa, mas durante os 30 primeiros minutos, vemos tudo isso de uma forma colorida, com ações já esperadas e claro, muita diversão. Destaque para os ajudantes de Gru, os Minions: eles são tão espertos quanto o dono e arrancam boas risadas do público, além de fazer a festa da criançada. Assim com o trabalho muito bem feito da Illumination em trazer uma história nova, personagens marcantes, sem parecer repetitiva e no final, não mudar o rumo do ‘Felizes para Sempre’, Meu Malvado Favorito apresenta em uma hora e vinte minutos o porque da magia de três menininhas em um vilão todo negativo.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Nova Categoria: Curtas!

Andei analisando o blog, e percebi que em meio aos poucos posts que eu escrevi ao longo desse quase 1 ano aqui, eu não mencionei nenhum curta metragem. Como é possivel, eu que sempre levantei a bandeira para incentivo de curtas, não ter falado de nenhum.
Pois bem, os tempos do blog mudaram! Trarei aqui para vocês sugestões , e tentarei mostrar que longe do glamour das grandes películas, também conseguimos encontrar grandes histórias.

"DEDICATÓRIAS": CURTA METRAGEM BASEADO NO "SONETO DA SEPARAÇÃO", DE VINICIUS DE MORAES

"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente não mais que de repente".
(Vinicius de Moraes)

Assita ao curta:


Gênero Ficção
Diretor: Eduardo Vaisman
Elenco: Carlos Gregório, Elias Andreato, Tuca Andrada, Zezé Polessa
Ano: 1997
Duração: 15 min
Colorido
Bitola: 35mm
País: Brasil


Ficha Técnica
Produção: Paola Vieira
Fotografia: Marcelo Duarte
Roteiro: Flávia Lins
Edição: Ana Teixeira
Som Direto: José Moreau Louzeiro
Direção de Arte: Cláudia Veloso, Pricilla Lopes
Trilha original: André Weller
Câmera: André Horta
Figurino: Luiza Marcier

Prêmios
Melhor Atriz no Festival de Brasília 1998
Melhor Atriz no Festival de Gramado 1998
Melhor Atriz no Festival de Vitória 1998
Melhor Ator no Festival do Rio BR 1998
Melhor Atriz no Festival do Rio BR 1998
Melhor Diretor no Festival do Rio BR 1998

sábado, 29 de janeiro de 2011

A Rede Social



Ambição, inteligência e um pouco de sorte são os principais componentes para a criação do Facebook, pelo menos é isso que se vê em A Rede Social.
O filme é baseado no livro Bilionários por Acaso, de Ben Mezrich, e mostra como a ambição de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) o levou a criar a maior rede social da Internet.
Segundo o filme, Zuckerberg criou o Facemash, um site que comparava as fotos de universitárias em que as pessoas as classificariam em "hot or not". Isso fez com que ele fosse advertido pela Universidade, mas lhe deu visibilidade para que os irmãos Winklevoss (Armie Hammer) o convidasse para criar um site de relacionamento em que só participariam alunos de Harvard. Mark Zuckerberg consegue algum dinheiro de seu amigo Eduardo Saverin (Andrew Garfield) e o nomeia diretor financeiro do Facebook.
Mas o grande destaque do longa é Justin Timberlake que interpreta Sean Parker o fundador do Napster. É ele quem mostra o potencial do novo negócio que está surgindo. Ao mesmo tempo ele toma o espaço de Saverin. Fica a impressão que Saverin é a vítima da história e que Zuckerberg e Parker os vilões.
A direção de David Fincher mostra o enredo de maneira alternada entre acordos com advogados e fatos passados, o que deixa A Rede Social, ágil afinal são 122 minutos que passam rápido.
Fui assistir o filme motivada por críticas muito favoráveis e algumas que até apontavam A Rede Social como o melhor filme de 2010. Um bom filme, com boa direção, mas longe de ser o melhor do ano passado.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Fernando Pessoa!


Dono de uma personalidade ímpar, de uma alma psicológica plural, misteriosa e mística, Fernando Pessoa tornou-se o maior poeta de língua portuguesa. Senhor absoluto da beleza das palavras e das verdades da essência humana, a sua poesia atinge a todos, sem distinção de raças ou classes sociais. A sua mensagem é de identificação universal, tocando de forma indelével a sensibilidade humana.
Considerado ao lado de Pablo Neruda, o maior poeta do século XX, Fernando Pessoa foi um dos responsáveis para que a cultura portuguesa atingisse o mundo contemporâneo, dando mais fama à literatura do seu país do que o próprio Luís de Camões. O mundo inteiro rende-se à sua poesia.
Fernando Pessoa dividiu a sua obra com vários personagens que criou, dando-lhes nome e personalidades distintas. Os chamados heterônimos, o médico Ricardo Reis, o camponês Alberto Caeiro e o engenheiro Álvaro de Campos, entre os mais famosos, foram vozes poéticas saídas da genialidade do poeta, que enriqueceram a sua obra grandiosa.
Sendo o poeta mais lido da língua portuguesa, com uma obra traduzida com sucesso em diversas línguas, Fernando Pessoa viveu uma vida discreta, sem histórias de amor registradas, sem fatos escandalosos ou dramas pessoais. Conviveu com artistas do modernismo português, como Almada Negreiros e Sá Carneiro. Para sobreviver trabalhou no comércio, como tradutor e, como colaborador de agências publicitárias. Justificava as profissões paralelas à sua escrita dizendo: “Ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação”. Sua personalidade enigmática venceu a discrição de vida, explodindo na beleza da sua obra.
Ironicamente, Fernando Pessoa só publicou um livro em vida, “Mensagem”, um conjunto de poemas dedicados aos heróis portugueses, e ao sonho máximo do sebastianismo: o Quinto Império. O livro trazia umas trinta páginas, um nada diante dos vinte e cinco mil manuscritos que deixou, em parte por classificar, dentro da sua mítica arca.
Fernando Pessoa morreu aos 47 anos de idade. Sua morte não causou comoção, pois era um quase desconhecido. Sua obra, aos poucos, foi sendo tirada da arca mágica e descoberta pelo mundo. Da poeira dos manuscritos, revelou-se um mundo deslumbrante e infinito na grandeza da alma humana. Ainda hoje, poemas inéditos continuam a emergir dos baús. Sua personalidade, quanto mais lida a obra deixada, isola-se em um patamar inatingível, em um magnetismo misterioso inabalável. Pessoa não só fez parte do gênero humano, mas foi a sua própria essência da alma.

Dedico o post de hoje a um alguém muito especial. Alguém ama os livros e ama à Fernando pessoa. Alguém que chegou a tempos, e agora mesmo um pouco distante, como uma estrelinha ainda brilha no meu coração.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Gal Costa - A musa de qualquer estação


O mais bem sucedido disco comercial da carreira de Gal Costa, com vendas que assolaram não só o mercado brasileiro, mas também o internacional, trazia um sofisticado repertório que se viu eclipsado e vincado pela mítica “Um Dia de Domingo”, dueto antológico da cantora com Tim Maia, considerada pelos críticos mais austeros a grande mácula brega no repertório galcostiano, sem justiçar a bela arquitetura sonora de um álbum eclético.
Lançado em plena virada que mudaria a face da MPB ante ao grande público, em 1985, Bem-Bom é a síntese dessa mudança, onde o tradicional toque bossanovista dava passagem para o popularesco, que por sua vez, fecharia a década de oitenta de portas abertas para os movimentos do axé e do pseudo- sertanejo. Bem-Bom, cumpre esta função ao diluir nas suas faixas o novo rock que se desenhava, trazendo autores então incipientes como Cazuza, consolidando a Bossa Nova que se estreitava naquela década, o velho rock psicodélico pós Tropicália de Waly Salomão e, principalmente, o romantismo exacerbado que abriria passagem para as bem sucedidas duplas sertanejas vindouras, através da coragem de gravar Michael Sullivan e Paulo Massadas, a dupla mais registrada por grandes intérpretes da MPB naquela década, hoje marginalizada e datada pela crítica e pelo público.
Bem-Bom demarcava os quarenta anos de Gal Costa, na época estrela absoluta da MPB, trazendo um vigor estonteante, uma extensão vocal que beirava o viés da perfeição. Idealizado pela cantora e pelo genial Waly Salomão, mostra-se eclético, moderno e tradutor da essência de uma década, muitas vezes injustiçada pelas novas gerações, que da época só viram o exagero das cores new wave. Erroneamente identificado como o disco de “Um Dia de Domingo”, é um dos registros mais ousados da cantora, que passa por Chico Buarque, Roberto e Erasmo Carlos, Milton Nascimento, Djavan, Gonzaguinha e Marina Lima, trazendo uma sensível beleza técnica de uma das maiores vozes do mundo. Bem-Bom, quem comprou o álbum na ânsia de um apelo popular, deparou-se com um sofisticado repertório, longe de ser alcançado pelos milhões de ouvintes que o levou para casa. O disco é a sutil tradução de uma década, sem jamais ficar preso a ela.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

PicNic (Férias de Amor)


Há certos filmes que marcam por pequenos detalhes na composição da história contada. A química entre os protagonistas, a beleza da imagem, a sutileza na contravenção dos costumes, um certo romantismo realista, onde o que se propõe é contar uma grande história de amor. “Picnic”, ou “Férias de Amor” na tradução brasileira do título, de Joshua Logan, reúne estes detalhes que lhe dão a dimensão de uma doce e contundente narrativa, satisfazendo o espectador, que ao final, tem a certeza de ter assistido uma boa história, sem a pretensão das grandes produções, ou do filme cultuado.
William Holden, apesar de ser criticado na época por ter dez anos a mais do que a personagem, compõe um sensual, sedutor e atormentado Hal Carter, numa interpretação única, que, ao longo do tempo, vem sendo reconsiderada pelos que se lhe admiram a obra. Kim Novak é de um esplendor mágico,sendo irradiada por sua infinita beleza juvenil. Juntos, os atores compõem um dos mais belos casais românticos do cinema dos anos cinqüenta.
Picnic” é o retrato absoluto de um modo de vida da sociedade do interior dos Estados Unidos naquela década. A beleza da fotografia, realizada por James Wong Howe, é realçada pela excelente trilha sonora, com efeitos que sublinham a tensão e a emoção ao fim de cada frase, de cada diálogo mais intenso, dando uma dramaticidade visual que se remete clímax teatral. A atmosfera sensual paira no ar, em um erotismo sutil, que subverte os costumes da época, revelados na antológica cena de dança de Hal e Madge; no dorso nu de William Holden; na seminudez de Kim Novak nos vestiários. O torpor irradiado entre o casal que durante todo o filme tentam fugir da atração irremediável que os impele, faz com que se espere o beijo a cada cena, a cada olhar sutilmente trocado, cada sedução, num ápice final irreversível.
Picnic” é um clássico do filme romântico, é daqueles filmes que longe de querer ser mítico, mantém um ritmo que prende o espectador até a última cena, trazendo ao final, a satisfação de que se assistiu a uma agradável história, com uma emoção à flor da pele. Faz-nos sonhar com os anos cinqüenta, com as belezas sedutoras extintas pelo tempo de William Holden e Kim Novak, em um momento que se eterniza a juventude através da imagem. É, acima de tudo, uma belíssima e comovente história de amor.