quinta-feira, 29 de julho de 2010

Budapeste!


Há cerca de uns dez anos tornei-me uma profunda admiradora de Chico Buarque. A sua música e as suas letras transportam o génio de uma voz sentida, espelho de alma umas vezes revoltada, outras serena mas sempre mágica.

Foi, pois, com muita curiosidade e expectativa que procurei no Chico Buarque escritor o traço de génio do Chico Buarque músico. Obviamente, não o encontrei. Ele é um músico genial, pertence ao clube dos imortais e isso, é claro, levou a que as minhas expectativas em relação ao romancista disparassem para níveis impossíveis de alcançar.

Por outras palavras, este não é um livro de génio como foi a musica da Ópera do Malandro, por exemplo. Nem podia ser porque o génio é inigualável.

Neste livro, Chico Buarque aborda a eterna questão que assola a alma humana, a procura da identidade, de uma forma muito clara e assertiva. José Costa é um escritor anónimo, que escreve para outros escritores, esses sim famosos. José Costa é o escritor sombra, a par de muitos outros. Mas aquilo que para qualquer pessoa pode parecer uma desonra (escrever algo que é publicado por outro) é, para Costa, motivo de orgulho; ele sente-se realizado ao saber que outros ganham fama e dinheiro com os seus textos. No entanto, ele vai-se diluindo nesse anonimato, como se fosse proibido de existir. José Costa é apenas uma sombra.

Por outro lado, José Costa é, como qualquer de nós, um ser múltiplo. Ninguém é uno. José Costa do Rio de Janeiro ama Vanda; Zsoze Kosta de Budapeste ama Kriska. Duas faces, duas vidas, duas identidades, um homem. Um homem talvez à procura da unicidade. Mas, como Budapeste dividida pelo Danúbio, assim Costa permanecerá dividido de si mesmo.

O final do livro é brilhante. Ao ler este pequeno romance sente-se o esforço de subir uma montanha e o prazer de alcançar o seu cume, onde se alcança uma magnifica panorâmica. Ou seja, o enredo, o ritmo narrativo nem sempre são animadores; a leitura faz-se por vezes com algum esforço. Mas o prazer de assistir a um desfecho surpreendente faz com que, decididamente, valha a pena gastar umas horas a ler este Budapeste.

Seja como for, este Chico Buarque escritor nunca ultrapassará (na minha modesta opinião) a imortalidade deste génio musical.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

No más hermanos!


Ouvi com curiosidade esse final de semana o álbum de Marcelo Camelo - seu primeiro em carreira solo. Com curiosidade e dor, pois foi horrível. Talvez meu sub-consciente de alguma maneira me dizia que era perda de tempo, que eu não gostaria, por isso tamanha demora.
Eu me pergunto: quem esse cara pensa que é? As músicas e seus arranjos soam pedantes o tempo todo. Arrogantes, inclusive. É uma MPB com ar boçal, composições forçadas que resultam em sonoridades insípidas.
Gosto de muita coisa que o barbudo fez à frente do Los Hermanos. E esperava coisa boa tanto dele quanto de Amarante, de bons compositores que ambos se mostraram. Camelo já decepcionou, Amarante com seu Little Joy, seu ar blaseé, suas canções delicinhas de ninar me encantaram, apesar de achar que Little Joy que é demais enjoa.
A verdade é que no último CD do grupo, '4', algumas coisas já ficavam claras: o casal andava em caminhos diferentes; o caminho que se mostrava mais negro era mesmo o de Camelo. O clima já era um pouco modorrento, sem sal, bestinha. Não tanto quanto agora, mas já.
Os shows que o barbudo tem feito vão contra minha opinião: fãs cantam ardorosamente o CD inteiro, num clima parecido com o que já se via nos 'Cultos' dos Hermanos. Sim, um Culto. Uma vez quase fui esmagada em um show deles , pois parecia que as pessoas disputavam o posto de groupie mais ardorosa. Acho que esse clima de devoção abestalhada se reproduzirá ainda por muito tempo, já que na falta dos hermanos o que sobra ainda é o Camelo.
Critérios? Ouçam o troço e entenderão...

Estou ranzinza, sim.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Robertão!


Sim, sou fã de Roberto Carlos.


Normalmente, essas situações inusitadas acontecem por motivos inusitados, claro. Meu motivo maior é meu Pai, com seu violão Gianini, cantando Nossa Canção a fortes pulmões na varanda da minha casa, e também As Curvas da Estrada de Santos, ainda As Canções que Você Fez Pra Mim, e mais muitas que nem o nome sei.


O Roberto Carlos que eu conheço não é o mesmo que a maioria das pessoas conhece. E quando eu digo que gosto do Rei, ou canto baixinho uma de suas músicas, costumam me olhar torto, achar que eu estou brincando. Bom ser diferente. Não sinto falta das bandas emo tocando no meu computador. Não sinto falta dos ritmos eletrônicos da moda - psy, trance, techno, psytrance, psytechno, technotrance, psytrancetechno, blá blá blá tutch tutch tutch tutch.

O Daniel, lá de Jf,sempre dizia que eu parecia velha ouvindo o Roberto. O toque do seu celular era Fresno, não lembro bem - mas ele é um cara legal. Realmente, admiro os mais velhos. Música pra eles é aquela que traz lembranças, que emociona de alguma maneira. E, vejam só, não são só eles que pensam assim. É desse modo que as pessoas costumam assimilar a música. Tirando, claro, desse caldo, quem ouve o que lhe plastifica melhor aos outros. 90% de quem eu conheço é assim, normal no meu círculo social, algo normal na minha idade.

Respeito o motorista do último taxi que peguei, que cantava um Zezé di Camargo emocionado, nem me dirigia a palavra. A letra era piegas, a melodia um chavão completo, mas ah, seus sentimentos naquele momento se manifestavam vivos. O que esttou tentando passar nesse post que hoje é dedicado ao meu querido, meu velho e meu amigo , além claro de ser meu pai, é que independente do que diz a mídia, a música sendo ela brega ou não lava a alma.


Disso eu tenho certeza!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Meu coração...


Janelas velhas e abotoadas pelo tempo
Choram e rangem ao sinuoso vento
Esbravejam ao pestenejar do relento
Janelas... Móveis sem sentimentos

- As janelas devem ter sentimentos!
Afinal representam estar aberto ou não para algo...

Meu coração têm janelas?
Me disseram que o olhos de certo, eram as janelas da alma
E meu coração?
Janelas de um mostruário em dada exposição?

Hum...

Meu coração se fechou por um vento!

[apenas isso]

O resto é apenas confabular sobre madeiras e pedaços de pau.

Ana Pampanelli

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Simplesmente Drummond!


Ontem a noite, folheando um dos meus livros , dei de cara com um poema que fez parte da minha juventude.Não que eu não seja mais jovem, mas falo de um tempo que ocorreu há uns 10 anos atrás. Trata-se de Morte do Leiteiro, de Carlos Drummond de Andrade. Na época da qual falo, aos meus 12, 13 anos, Drummond teve um papel muito importante: incentivou-me a um gosto apaixonado pela leitura. Entre os livros velhos que decoravam - e ainda decoram – algumas estantes da nossa casa na praia, havia um, ainda mais velho que os demais, com os melhores poemas do maior dos poetas brasileiros. Todo esse amor e devoção a leitura, é uma das muitas dádivas recebidas de minha mãe. Professora de literatura, poeta e amante da leitura, foi ela quem me apresentou o livro. A morte do Leiteiro é um dos mais bonitos, sobre a morte acidental e trágica de um leiteiro, vítima da intolerância de um país e de um mundo mergulhados no medo – o poema saiu no livro A Rosa do Povo, de 1945, quando o Brasil vivia a ditadura de Vargas e o mundo sofria os horrores da Segunda Guerra.

Verdadeiramente mais uma vez me emocionei, e quiz compartilhar com vocês todo esse prazer que eu sinto em ler. Aos que compartilham do mesmo sentimento e ainda não conhecem tao belo poema, fica aqui a dica de uma leitura gostosa de se ter, e em se tratando de Drummond o resto dispensa comentários!

Aproveitem!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

My sweet lord!



Devo dizer que Johnn Lennon sempre será meu beatle favorito! Mas também devo dizer que George Harrisson tem sua vez, e que apesar das suas boas atitudes ele naõ era grandes coisas antes da nossa Paty Boyd aparecer .Dizem que ela em muito contribuiu para fazer deles e dos outros betales muito mais que uma banda de rock dos anos 60 viciada em Lsd, India e meditação. (Inclusive esse um caso curioso que merece um post inteirinho, ja que a complexidade assim o exige.)
A loirassa causou sim um grande tumulto na vida do quietinho porém super sexy e hot Harrison. Ual quem não se lembra das lindas canções que o marido charmoso e devoto, dedicou a amada para no final das contas ela acabar dando uma ciscada para os lados do também bonitão Eric Clapton, que era o melhor amigo do casal! Foi um choque!
Mas ele superou, divorciou-se, perdoou o amigo e casou-se com Olivia. Três anos após o término dos beatles, sua carreira solo não parava de crescer, foi quando então com 27 anos, lançou o albúm entitulado de " My sweet Lord".
Ele se superava musicalmente a cada dia.
Vieram então os filhos, os prêmios, o cancêr e ele morreu! Triste e trágico.
Mas vai ser sempre lembrado, como agora.
O posto de hoje esta sendo escrito ao som da minha canção favorita, My sweet lord. Que me faz sentir o sabor da minha infância, o cheiro do mato na roça e me deixa com o coração apertado, com vontade de amar.





terça-feira, 6 de julho de 2010

Chico Buarque de Holanda


Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás se fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir?

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Oito e meio! Federico Fellini..



Ando me sentindo exageradamente poética e inspirada a escrever, principalmente sobre meus filmes favoritos. Toda essa animação se da pela demonstração de interesse por parte de alguns amigos, em conhecer as obras das quais eu tanto falo. Falo, falo e repito, sempre na busca incessante por tentar mudar o mundo cultural das pessoas!

Sim! E não é maluquice minha não, mas é que muito me incomoda quando em meio as pessoas me sinto como se meus gostos, minhas apreciações e meus interesses fossem como algo terrivelmente estranho.

Acho que hoje em dia, cultura para muitos não está na moda. Eu continuo insistindo em ser “démodé” se for esse o caso!

Ele apareceu repentinamente, e eu nunca tinha visto nada do Fellini. Em compensação, já havia lido muita coisa a respeito, mesmo contra a vontade. Acho que falavam tantas maravilhas dele que eu não me sentia preparada para a “experiência”. Então, em meio à minha empreitada pela busca de novas culturas me deparei com Oito e Meio e decidi arriscar. No final do filme a primeira coisa que pensei foi que, realmente, talvez eu não estivesse preparada até bem pouco tempo pra passar pela enchente de sensações e experimentações de Fellini. Mais que isso, pensei que é um filme desses (como acontece com tantas outras coisas) que se deve experimentar de tempos em tempos, com a certeza de novas descobertas.

Sim, Oito e Meio é “uma viagem”. A história parece boba: um diretor com crise criativa, pressionado por família, amigos e colegas a iniciar os trabalhos de seu novo filme. Porém, com todo o surrealismo que se preze, Fellini afoga Guido (Marcelo Mastroianni) em um caldo turvo de lembranças, sonhos e alucinações em busca de sua identidade. A memória, tema ultra-recorrente nos filmes de Fellini – freqüentemente emerge aí o passado do próprio diretor – é tratada com sofisticação artística e virtuose criativa.

Uma obra cativante, assim eu posso definir Oito e Meio. Pensando agora, enquanto escrevo, sobre suas personagens, não me vem uma só que me cause antipatia. Todas são mais que isso, são incrivelmente humanas, reais. O próprio Guido é infiel, instável, freqüentemente estúpido com sua mulher, amigos e colegas de produção; porém se mantém um herói a cada fraqueza sua exibida com as lembranças de criança, com os recorrentes e pequenos arrependimentos que tem no decorrer do filme. No final, a grande celebração é a da complexidade do homem, a louvação da resistência à modernidade e à visão enlatada do ser. O desfecho é um dos mais poéticos a que já assisti.

sábado, 3 de julho de 2010

O Poderoso Chefão!!!



Entre o pessoal que gosta e estuda cinema, mas renega os clássicos da época de ouro da sétima arte – por preconceito ou mesmo aversão ao preto e branco – O Poderoso Chefão consta quase sempre como favorito. Eu não me encaixo nesse perfil, e também tenho grande apreço pela obra-prima de Coppola, que vi pela primeira vez muito nova e depois revi algumas muitas vezes. Baseado no livro de Mario Puzzo, O Poderoso Chefão inovou como primeiro grande filme a mostrar o mundo da máfia pelo lado dos mafiosos, e no seu ritmo. Acima das críticas que tal tipo de filme sempre receberá por estar fazendo, dizem, apologia ao crime, O Poderoso Chefão é uma obra de arte delicadamente construída.

Ali temos de tudo: um extenso e inteligente roteiro, fotografia e montagem impressionantes, atuações majestosas – só Marlon Brando já justificaria a película – e uma trilha sonora inteligente, tudo sob uma direção impressionante, que Coppola não conseguiria mais repetir. O grande trunfo do filme, e um dos maiores motivos das críticas negativas, é o glamour operístico com que a história de sangue e traições foi retratada. As mortes são poéticas, as traições são inteligentes, os maiores canalhas são charmosos, a ponto de rirmos invariavelmente de situações que, em outros casos, nos dariam repulsa e nojo.

O Poderoso Chefão inaugurou praticamente um novo gênero no cinema, do crime como o faroeste urbano. Mas dessa vez o vilão é o cowboy, e também aqui torcemos por ele. O comportamento da família Corleone e de seus rivais acabaria por influenciar decisivamente outros filmes e mesmo o imaginário popular americano, tanto em relação à máfia quanto aos imigrantes italianos em geral. O filme ainda conseguiria a façanha de se tornar mais popular que o livro de Puzzo e ter duas continuações sendo também indicadas ao Oscar de melhor filme (apenas a terceira parte não saiu vencedora).

Acho incrível que existam pessoas que se dizem cinéfilos e nunca tenham assistido esse filme! No sentido estrito da palavra devo discordar de quem se entitula de tal maneira,e se restringe apenas a conhecer as novas super produções passadas no cinema local!

Comparações são dispensadas. Quem gosta e entende de cinema sabe o que eu estou falando!


quinta-feira, 1 de julho de 2010

Poesia Pichada! Uma flor nasceu na rua....


Paulo Leminski Filho (Curitiba, 24 de agosto de 1944 – Curitiba, 7 de junho de 1989)

RUMO AO SUMO

Disfarça, tem gente olhando.
Uns olham pro alto,
Cometas, luas, galáxias.
Outros olham de banda,
Lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
Sempre tem gente olhando,
Olhando e sendo olhado.
Outros olham para baixo,
Procurando algum vestígio
Do tempo que a gente acha,
Em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
Já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
A alma, esse conto de fadas!!