domingo, 13 de março de 2011

Le Mond Vivant!





Eugène Green era um total estranho pra mim até um mês atrás, mas uma boa indicação cinematográfica me tirou das trevas do cinema. Ironias a parte, eu realmente não tinha ideia nenhuma da existência desse nova iorquino que aos 22 anos se mudou para Paris pra estudar Letras e História da Arte. Depois de passar pelo teatro e também ter uma atuação significativa como escritor, em 2001, fez seu primeiro filme, Toutes Le Nuits. Fato é que Green, apesar de ter uma importância crucial na história do cinema francês contemporâneo, não tem devido conhecimento aqui no país, sendo que somente no ano passado teve um filme seu exibido nos cinemas brasileiros, A Religiosa Portuguesa, que teve sua exibição na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Uma pena, pois o cinema desse diretor é algo expressiva e tocantemente belo.

Minha primeira experiência com o diretor foi o longa O Mundo Vivente, uma saga que alia o estilo das fábulas e dos contos de fada ao cinema sensorial, muito ligado a longos silêncios e atuações quase sem expressões. Fato é, o filme remete diretamente ao cinema, pouco compreendido pelo público e muito aclamado pela crítica, do mestre Robert Bresson. Desde a composição dos planos até o uso da trilha sonora, os resquícios das obras de Bresson são evidentes e muito bem utilizadas.

O filme conta a história de dois cavaleiros que buscam lutar contra um Ogro que tem domínio conjugal com duas donzelas. Parece simples, mas não é nenhum pouco, principalmente quando a simbologia utilizada na construção da obra não é nenhum pouco comum. Primeiro temos um figurino nada usual para o tempo-espaço em questão. As donzelas se vestem com longos vestidos, mas os cavaleiros estão numa camisa e calça jeans, espadas que parecem de brinquedo. O leão do cavaleiro na verdade é um cachorro da raça Golden Retriever. Mas não entenda isso no sentido de graça do diretor, mas sim de colocar um código de atemporalidade na obra e de não se prender as construções imagéticas comuns. As atuações são as mais gélidas possíveis, de olhares que dizem muito mais que qualquer expressão facial ou drama. E em dois únicos momentos em que elas escapam dessa regra, temos as sequencias mais epifânicas do filme. Numa delas – e talvez a mais bela do filme – só escutamos a respiração ofegante e o consequente choro da personagem, enquanto vemos duas mãos se tocando e entrelaçando-se no escuro.

Mas o ponto mais forte, não só do filme, mas da cinematografia do próprio Green, esta na importância que a palavra tem na sua obra. Resgatando esse cinema muito esquecido atualmente. (tão consagrado por Eric Rhomer e George Cukor) . No filme de Eugéne o diálogo e as palavras ecoadas não se encontram como mero artifício narrativo, elas ganham um sentido existencial e de limite ou a detração dele. “Tuas palavras nos uniram”. E por elas o abismo entre a vida e a morte ultrapassa a significação milagrosa, tornando-se algo natural, a força de uma palavra.

E com elas eu termino essa postagem:

“No mundo vivente,
o sopro do espírito
é o sopro do corpo”

O Mundo Vivente (Le Monde Vivant)
Direção: Eugène Green
Gênero: Drama/ Fantasia
Origem: França, 2003
Duração: 71 min

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